A Filosofolia de Marquinho Mendonça
por Daniel Brazil
Volta e meia vemos jovens músicos talentosos surgirem no
cenário musical brasileiro. Mais difícil é vê-los se firmar, com linguagem
própria e espaço definido. Naturalmente, poucos começam como solistas. É mais
comum vê-los tocando com músicos mais experientes, participando de grupos,
tocando em estúdios. Muitas vezes, fazem tudo isso ao mesmo tempo. O salto para
o trabalho-solo não é fácil, e o resultado muitas vezes fica aquém do esperado,
seja por uma produção apertada, por falta de maturidade artística ou até mesmo
por precipitação.
Considerando tudo isso, é hora de jogar o boné para o alto e
aplaudir com entusiasmo Filosofolia, o belo CD de estréia de Marquinho
Mendonça. Figura conhecida do circuito independente paulista, o talentoso
instrumentista está na estrada há um bom tempo. Estudou guitarra no Musicians
Institute, em Los Angeles, mas não voltou americanizado. Pelo contrário!
Marquinho mergulhou profundamente nos ritmos regionais
brasileiros, fundando bandas como a Mafuá, pesquisando com grupos como o
Cachuêra! e Cupuaçu e tocando com músicos como Dominguinhos, Elba Ramalho,
Alceu Valença, Oswaldinho e Tom Zé, no Brasil e na Europa. Além dos violões e
da guitarra elétrica, abraçou também o cavaquinho e o bandolim, pesquisando o
choro, o frevo e outros gêneros da rica jazida musical brasileira.
Seu lado virtuosístico se desenvolveu em trabalhos com
vários parceiros, com destaque para a dupla com o excelente Renato Anesi.
Também se apresentou com Yamandú Costa e aprendeu alguns truques com Ulisses
Rocha. Em estúdio, gravou com inúmeros bambas, veteranos e emergentes. Quando
sentiu que era hora, tinha um bom repertório de belezas próprias.
Para conseguir a sonoridade desejada, Marquinho chamou
vários amigos de palco e estrada. E que amigos! Proveta, Toninho Carrasqueira,
Naná Vasconcelos, Renato Anesi, Marcos Suzano, Luizinho 7 Cordas, Sizão
Machado, Adriano Busko, Carlinhos Antunes, o pessoal da Barca, do Cupuaçu, da
Mafuá. Renato Brás abre o disco com duas faixas em vocalise, Tião Carvalho
arrepia na toada Dona Tá Reclamando, e Ney Mesquita deixa registrada a sua
saideira em Fogueira Acesa/ Pele de Um Tambor. Sem falar dos arranjos de sopros
de Laércio de Freitas e de Ademir Araújo, só pra chatear os amadores.
Marquinho Mendonça constrói um amplo arco de ritmos e
sonoridades instrumentais. Tem seresta, tem choro, tem frevo, tem jongo, tem
jazz latino, tem samba-jazz com toques de Espanha. E, por incrível que pareça,
essa babel musical tem naturalidade e coesão.
É admirável a beleza melódica das composições, a destreza
instrumental, a eufonia dos arranjos. Os momentos em que irrompem, vindos lá do
fundo da massa sonora, uma toada maranhense ou um canto ancestral de jongo,
tornam a audição um reencontro com o Brasil mais profundo. Fazendo ligações
entre o universal e o típico, Filosofolia é um bom exemplo da bela tradição
instrumental de nossa terra, com vários momentos emocionantes.
OUÇA AQUI!
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